Grupo Z

Filme registra Bogotá através do teatro

Com 22 anos de idade, a recém-formada em Jornalismo Marina Veshagem escolheu Bogotá como objeto de seu trabalho de conclusão de curso. Com poucos recursos, equipamento emprestado da universidade e sua colega Fernanda Martins como ajudante, Marina morou por um mês em um dos bairros mais perigosos da cidade, Atanasio Girardot.

O documentário “Pelas Lentes do Palco”, orientado pelo professor Fernando Crocomo (UFSC), traduz os sentimentos dos atores do grupo colombiano Colectivo Teatral Luz de Luna em relação aos problemas sociais e políticos vividos na comunidade, em uma mistura entre realidade e ficção. Leia a entrevista com a diretora:

O filme traz entrevistas com os personagens do teatro e mostra ao mesmo tempo o ator por trás dele. Quem mais te marcou?

A Adriana, sem dúvida (que interpreta a mãe de Leonardo Gomez no espetáculo Donde Esta). Outros me marcaram, mas ela tinha uma contradição muito forte. Tinha recentemente assumido a administração do grupo; era mulher, tinha dois filhos, teve o marido preso por quatro anos por falsas acusações de conspiração contra o governo, é perseguida até hoje pelo governo e tem que trocar o chip do celular de tempos em tempos pra não ser localizada. Mas ela tocava o grupo com muita força, fazia as coisas acontecerem. Por isso era reconhecida não apenas como atriz, mas sim ativista.

Como foi a preparação para filmar um documentário na Colômbia sendo estudante de jornalismo e mulher?

Sempre digo que foi um risco calculado. Quer dizer, risco havia. Era um dos bairros mais perigosos de Bogotá, iria com um equipamento caro e éramos duas mulheres. Mas consegui hospedagem na casa de uma família que me tratava como filha e zelava pela minha segurança. Li muitas coisas sobre a Colômbia e sobre Bogotá, como política de segurança, por exemplo. Busquei orientação junto a órgãos do governo colombiano, entre outras coisas.

Que tipo de outras coisas?

Cuidados aparentemente desnecessários, como até pensar na roupa que se vai usar quando for ao bairro, por exemplo. Para mim era importante não usar decotes, saias ou qualquer tipo de roupa provocante. Busquei estar muito segura do que queria fazer, buscando uma relação de proximidade com o grupo – porém de respeito mútuo.

Por que Bogotá? O que te inspirou para ir até a Colômbia fazer seu trabalho de conclusão de curso?

Conheci muitos colombianos, quando estive na França. Achei-os culturalmente parecidos com os brasileiros e me dei conta de que não sabia muita coisa sobre a Colômbia – e que tudo que sabia era pela mídia. Sabia que tinha guerrilha, paramilitares e narcotraficantes. Decidi que queria falar sobre a Colômbia, mas não de uma forma direta; queria representar uma fração daquela realidade, fazer um retrato. Então decidi pelo teatro, antiga paixão minha. Pesquisei pela internet grupos de teatro comunitário que falassem da realidade a partir do ponto de vista deles e acabei encontrando o Luz de Luna.

O que mais te marcou na imersão colombiana?

Eu não sabia se seria um choque cultural, mas esperava em algum ponto. Esse choque não veio logo de cara. Eram detalhes no cotidiano que faziam a diferença, como militares extremamente armados reunidos em pleno centro às oito da manhã; cachorros cheirando os carros antes de entrarem num shopping da cidade para identificarem drogas ou explosivos; ou manifestações no sábado de manhã, pedindo melhorias nas políticas de saúde. Mas marcar mesmo, acho que foi a hospitalidade e cordialidade do povo. As pessoas com quem convivemos, eram muito amáveis, festeiras e calorosas. Muito.